A primeira dúvida de quem mora em apartamento não é "como compostar", e sim "o vizinho vai sentir cheiro?". Fernanda Ribeiro, professora de geografia no Grajaú, Rio de Janeiro, ouviu essa pergunta do porteiro, da faxineira e da mãe — três vezes cada uma — antes de montar a composteira na varanda fechada.

Um ano depois, o registro é outro: nenhuma reclamação, terra escura para as vasinhas de tempero e menos lixo na lixeira comum do prédio.

Escolha o modelo certo para espaço fechado

Em apartamento, composteira aberta de quintal não serve. Fernanda optou por um modelo doméstico fechado, com tampa vedada e bandeja coletora de líquido — o famoso "chá de compostagem", que ela dilui e usa nas plantas.

Outra opção popular no bairro é a composteira Bokashi, que usa microrganismos para fermentar os restos antes da decomposição final. Ocupa pouco espaço e aceita até restos de carne em pequena quantidade, embora Fernanda prefira ficar só com vegetais por praticidade.

Quem está começando pode pedir emprestada a composteira de um vizinho por duas semanas antes de comprar a própria. Fernanda fez isso e descobriu que o modelo com minhocas combinava melhor com a rotina dela do que o Bokashi — mas só soube depois de testar, sem gastar às cegas.

A regra de ouro: mais seco do que molhado

Cheiro de composteira quase sempre vem de excesso de umidade. A receita que funcionou para Fernanda é simples: para cada xícara de resto de cozinha, uma xícara de material seco — serragem, papelão picado ou folhas secas trazidas da praça.

  • Evite jogar alimentos líquidos direto na caixa
  • Escorra bem saladas e frutas lavadas
  • Revire a massa uma vez por semana com uma pá pequena
  • Se sentir amônia, adicione mais material seco na hora
Materiais secos e úmidos na compostagem doméstica
Equilíbrio entre úmido e seco é o que mantém a composteira sem cheiro em ambientes fechados.

Onde colocar: varanda, área de serviço ou despensa?

Fernanda mantém a caixa na varanda envidraçada, longe do sol direto e com ventilação cruzada quando abre a janela. Vizinhos que compostam na área de serviço relatam resultado parecido, desde que o espaço não fique abafado.

Ela colocou um tapete de borracha embaixo da bandeja coletora para evitar manchas no piso — detalhe que parece exagero até a primeira vez que o líquido transborda num dia de chuva. Em prédio antigo, proteger o vizinho de baixo também é proteger a sua própria paz.

Evite quarto e sala: não pelo cheiro, que some com o manejo certo, mas pela praticidade de acesso e pela umidade relativa do ambiente.

Quanto tempo até virar terra?

Em modelo doméstico com minhocas californianas — vermicompostagem —, o primeiro húmus aparece em 60 a 90 dias. Sem minhocas, o processo leva de três a seis meses, dependendo do tamanho dos pedaços e da temperatura.

Fernanda separa o material mais decomposto nas camadas de baixo e deixa o topo para os restos novos. Assim, não precisa esperar tudo ficar pronto de uma vez.

Converse antes com o síndico

No prédio da Fernanda, a compostagem na varanda não exige autorização formal, mas ela avisou o síndico na primeira assembleia. Transparência evita boatos. Se o seu condomínio tiver regra específica, vale ler o regimento antes de comprar a caixa.

Ela também deixou uma pequena caixa de cortesia no hall do andar, com saco de serragem e folha impressa explicando o que pode ir na composteira. Três vizinhos aderiram no primeiro mês — prova de que compostar sozinha não precisa ser compostar isolada.

Carla Mendes mora em apartamento em Belo Horizonte e compostou na varanda por quatro anos. Cobre compostagem urbana e hortas em pequenos espaços para o Terra de Quintal.