Em março de 2026, o Condomínio Parque das Palmeiras, em Campinas, aprovou por 31 votos a favor e 12 contra a coleta seletiva de resíduos orgânicos. Três meses depois, a taxa de adesão passa de 70% — número que Roberto Alves, síndico há dois anos, considera vitória modesta e honesta.

"Não foi unanimidade e não precisava ser", diz. "Precisava ser claro."

A assembleia que definiu tudo

Roberto levou para a assembleia três opções: composteira coletiva no quintal, parceria com cooperativa de catadores ou coleta pela prefeitura (ainda em fase piloto no bairro). Os moradores escolheram a terceira, com lixeira marrom no lixo comum e baldes individuais vendidos a custo no subsolo.

A regra escrita no mural: orgânicos vão no balde, balde vai na lixeira marrom, lixeira marrom sai às segundas e quintas. Simples o suficiente para colar num adesivo.

Roberto levou para a assembleia também o custo de cada opção, sem arredondar pra cima nem pra baixo. Moradores votaram sabendo que a coleta pela prefeitura era a mais barata no curto prazo, mas que dependia do piloto não ser cancelado — transparência que evitou reclamação de «não fomos avisados» depois.

Treinar porteiros e zeladores

O erro mais comum no primeiro mês foi mistura. Porteiros receberam cartaz com fotos do que entra e do que não entra. Carne crua, ossos e fezes de animal ficaram de fora — limitação da cooperativa parceira, não do condomínio.

  • Cascas, restos de preparo e frutas: sim
  • Papel toalha sujo de comida: sim, com moderação
  • Restos de refeição com muito óleo: não
  • Embalagens biodegradáveis sem certificação: não
Lixeira para resíduos orgânicos em área comum de condomínio
Cartazes com fotos reduziram erros de separação nos primeiros 30 dias.

Onde NÃO colocar a composteira

Um morador sugeriu composteira no estacionamento. A ideia morreu rápido: ventilação ruim, acesso difícil e risco de atrair pragas perto dos carros. O quintal lateral, arejado e longe das janelas do térreo, foi o único local aprovado para quem quiser compostar individualmente — hoje são quatro unidades com minhocário próprio.

Custo real para o condomínio

A taxa extra mensal ficou em R$ 1,20 por apartamento — custo da coleta diferenciada. Roberto compara com a redução no volume de lixo comum: o caminhão passa com menos frequência, e o aterro municipal cobra por peso. A conta fecha no longo prazo, embora ninguém tenha prometido milagre na assembleia.

Nos primeiros 90 dias, o condomínio registrou queda de 28% no peso do lixo comum. Número que Roberto cola no mural todo trimestre — não pra convencer quem já separa, mas pra lembrar quem ainda joga tudo no mesmo saco que o esforço coletivo aparece na balança.

O grupo de WhatsApp quase sabotou

Foto de banana jogada na pia gerou 47 mensagens num domingo. Roberto criou regra: dúvidas sobre separação vão para e-mail da administração, não para o grupo. O barulho caiu. Moradores que querem ajudar viraram "embaixadores" — um por andar — para responder perguntas básicas antes que virem discussão.

Próximo passo: horta no terraço

Com o húmus que a cooperativa devolve trimestralmente, o condomínio planeja canteiros no terraço para 2027. Por enquanto, o adubo vai para moradores que se inscreveram numa lista. Fila curta, disputa zero — até agora.

Roberto recomenda que quem quiser replicar o modelo comece pela regra escrita e pelo treino de portaria, não pela lixeira bonita. «Equipamento sem rotina vira enfeite», resume. O Parque das Palmeiras ainda está no primeiro capítulo — mas já provou que assembleia bem conduzida vale mais que discurso ecológico no elevador.

Helena Souza é jornalista e moradora de condomínio em Campinas. Cobre gestão de resíduos e assembleias de vizinhança para o Terra de Quintal.