A horta comunitária da Rua das Acácias começou em 2023 com seis canteiros e muita terra comprada. Em 2026, quase metade do adubo vem de dentro do próprio quarteirão — casca de feira, borra de café dos vizinhos e folhas podadas da praça ao lado.
O coordenador, Seu Geraldo, 67 anos, aposentado da construção civil, não gosta de discurso ecológico. "Economizamos dinheiro e a tomate ficou mais doce", resume.
Três leiras em rodízio
O sistema é simples: três leiras de madeira, cada uma com 1,20 m de comprimento. Uma recebe material novo, outra está em decomposição ativa e a terceira descansa com húmus quase pronto.
Quando a leira de maturação atinge a temperatura certa — Seu Geraldo mede com um termômetro de cozinha comprado na feira —, o conteúdo vai para peneira. O que não passou volta para a leira ativa.
As leiras ficam sob telhado de lona, apoiadas em pallets para não apodrecer a base de madeira. No inverno gaúcho, ele cobre o topo com estopa de juta nas noites mais frias — truque aprendido com um vizinho que já compostava há dez anos e não gostava de teoria, só de resultado.
A escala de terças-feiras
Organizar a coleta foi o maior desafio. A solução foi uma escala fixa: a cada terça, dois moradores trazem o balde de orgânicos de casa. O mercadinho do Seu Nilton doa cascas de fruta e verdura que não venderam na segunda.
- Balde com tampa — cada família usa o próprio
- Proibido carne e laticínios nas leiras comunitárias
- Papelão sempre disponível no canto da horta
- Grupo de WhatsApp só para avisos, não para debate infinito
Do húmus ao tomate
O húmus peneirado é misturado com terra de canteiro na proporção de um a três. Manjericão, alface e tomate cereja respondem bem. Couve e cenoura pedem um pouco mais de paciência — Seu Geraldo diz que a couve prefere composto mais velho, com seis meses de maturação.
No último verão, a horta doou o excesso de hortaliças para a padaria da esquina, que passou a separar borra de café e cascas de cebola para as leiras. Fechou um ciclo simples: o quarteirão alimenta a horta e a horta devolve comida pro quarteirão.
Quem não tem horta também participa
Moradores sem canteiro próprio entram na escala de coleta e recebem hortaliças na divisão mensal — cada família que contribui com orgânicos leva uma cesta no último sábado do mês. Funciona como moeda de troca e mantém o fluxo de resíduos constante.
O que deu errado no começo
No primeiro mês, alguém jogou restos de refeição com molho de tomate demais. A leira esquentou demais e cheirou. Aprenderam a pedir que os restos fossem lavados e que óleo nunca entrasse. Erros fazem parte; o grupo documenta tudo num caderno de capa dura que fica na caixa de ferramentas.
Hoje o caderno tem página de «o que aprendemos» — útil quando chega morador novo e não quer ouvir a mesma história do molho de tomate pela terceira vez. Quem compostou em apartamento antes de entrar na horta costuma trazer boas dicas de manejo em espaço pequeno, que valem ouro quando a leira precisa de ajuste fino de umidade.